quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Carta de Ordem de Antônio Gonçalves Padilha


Antônio Gonçalves Padilha foi um pioneiro povoador do território do Rio Grande do Sul, na região de São Francisco de Paula (ou em Cima da Serra, como era costume chamar a região) a participar do comércio de gado, tendo nascido em Curitiba, que no recenseamento¹ de 1785, constava com suas fazendas e grande quantidade de gado, na região de São Francisco de Paula. Depois alguns anos da abertura do Caminho das Tropas, que propiciou o desenvolvimento do comércio do gado em toda região adjacente ao mencionado Caminho, ele já negociava com as tropas de gado (para confecção de couros, sebo e graxa²), conforme documento citado abaixo. Ele e vários outros indivíduos foram os aventureiros que vieram, alguns ainda jovens, de vilas já estabelecidas anteriormente à 1732,( de abertura e finalização do Caminho das Tropas), como Curitiba, Paranaguá, Laguna e  região de São Paulo, para consolidar vida e família no sul.

Carta de Ordem³
Obs: foi acrescentada pontuação para melhor entendimento do texto.

“Por dita minha Carta de Ordem e poderes que dou a Félix Domingues Pais, para em virtude dela, tomar conta, no Posto da Taipava, a José Ferreira da Silva, tudo por uma prestação do gado que “xarqueiou”(charqueou). Receberá primeiramente 110 couros pertencentes à mesma charqueação. Todo charque arrobado(pesado) e sebo e graxas tudo receberá por piso ...[ilegível] sacos que foram do sal , vinte e tantos alqueires de sal ensacados, um tacho, um machado, tudo passarão recibo do que receber e forem conduzidos a vila da Laguna a entregar ao Sargento-mór Jerônimo Francisco Coelho e de tudo cobrará recibo para me trazer as contas, também dará as despesas da [ilegível] e carretas ao Sargento-mór para se pagar. Também [ilegível] conta ao dito Ferreira de uns barris de aguardente de cana que ficou devendo e os seus impostos recebido que seja [ilegível] e com dinheiro pagará (a ) quem remar na “barsa”(balsa) e o dito Ferreira, logo que chegar [ilegível] lhe dará o tempo por acabado e esperarão pelo gado que vai daqui para charquear [ilegível] guiado que seja com ele para a Vila da Laguna [ilegível] por disposto que seja pagarão as despesas e nesse líquido rendimento fará assento para novas contas e do mesmo pagará uma “dobra”[dobla- antiga moeda colonial] e do mesmo de freitas [nome?] trará descargas de sal e pagará corrente mil reis que deve o dito na Laguna e o que restar trará para me entregar e por firmeza de tudo fez este só por mim assinado hoje. Cima da Serra, 13 de julho de 1785-* Antonio Gonçalves Padilha.

Consta firma reconhecida, em Porto Alegre, em translado da carta  e do processo a que fazia parte,  no Inventário de Antonio Gonçalves Padilha, localizado no APERS.

Esta carta foi escrita por Antonio Gonçalves Padilha, autorizando, Felix Domingues Pais, provavelmente, companheiro de tropeada de Padilha e posteriormente marido de uma filha de Padilha, Feliciana. (O já viúvo Félix Domingues Pais entrou com uma ação contra os herdeiros do sogro reivindicando o dote prometido pelo casamento e não pago, provando ter casado com a mesma e ganhando a ação). Este Félix, portador da carta, era autorizado a fazer negócios em seu nome, em 13/07/1785, sendo este o motivo do genro ter a carta em seu poder, carta esta que consta no inventário de Antônio Gonçalves Padilha.
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Notas da pesquisadora:

1-Recenseamento de 1784/85 ou “Relação de moradores que têm campos e animais no Continente”, mandado realizar pelo Vice-Rei do Brasil, Luis de Vasconcelos e Souza ao Provedor da Fazenda do Rio Grande, Diogo Osório Vieira, no início de 1784, com o objetivo de conhecer a real situação da distribuição de terras no extremo sul. No Arquivo Histórico do RS, Fundo 1198 A e B- O Império Português no sul da América, Helen Osório, Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2007, Pg 79
2-A coureada ou courama  consistia na matança do gado para a retirada do couro, era a atividade econômica que se desenvolveu nas planícies do sul antes da ocupação sistemática pelos paulistas e lagunenses, pela abundância de gado xucro disponível. Havia a caça ao gado disperso nas Vacarias do Mar e dos Pinhais, em investidas desde Laguna, no norte do continente e do sul, desde a Colônia de Sacramento e, posteriormente, desde a Vila de Rio Grande. As investidas do sul aconteceram desde a fundação da Colônia de Sacramento, a partir de 1680, quando este gado ficou mais acessível aos viajantes e moradores da fortaleza militar.
3-Era uma espécie de procuração da época colonial e hoje somente usada por magistrados. Vale como registro interessante dos movimentos iniciais que os primeiros posseiros e negociantes de gado faziam com as tropas até São Paulo.

* A carta era de 1785 e fazia parte de um processo que o genro (Félix Domingues Pais) movia contra os herdeiros do espólio de Padilha, no processo de inventário do Antônio G. Padilha,(pois não era a carta original que constava no traslado e sim uma cópia)A tal carta foi anexada em processo posterior à data da mesma, no processo que correu paralelo ao inventário( processo este que também não existe mais e sim a sua cópia no inventário).


3 comentários:

  1. Olá, Patrícia!
    Bem interessante a sua postagem.
    Quem sabe esse Antonio Gonçalves Padilha seja um ascendente do outro Antonio, citado em meu blog.
    Vamos ver se conseguimos descobrir a relação entre eles.
    Abraços,
    Ismênia.

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  2. Olá, Ismênia. Já andei tentando encontrar a descendência, mas a lacuna documental é grande. Abraços.

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  3. Olá,pertenço a família Farias.Contava meu avô que eles têm história em Vacaria a cerca de terras e brigas.Vc sabe algo a respeito?Obrigada.

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