terça-feira, 12 de novembro de 2013

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

Parte 8- Continuação do Cap XXI (pág 236)
Descrição da viagem por Santa Catarina*


*Nota-embora não seja objetivo desta pesquisadora traduzir todo o conteúdo do livro de Lisle, será acrescentada a parte da viagem dos ingleses até a chegada na ilha de Florianópolis(Santa Catarina), pelo interesse histórico da descrição dos caminhos usados pelos viajantes entre o Continente do Rio Grande de São Pedro, Laguna e Ilha de Florianópolis.

9º dia de viagem

Nós descansamos em Torres por 1 dia, como tinha sido combinado e com nosso guia capacitado novamente , retomamos a nossa marcha.
Nós saímos à luz do dia e imediatamente ao deixar Torres entramos na Capitania de Santa Catharina. Nossa rota era ao longo da costa do mar e ao meio-dia nós chegamos a uma cabana onde não obtivemos provisões, com exceção de leite e um pouco de rum, então fomos forçados a almoçar com isto e um pouco de farinha que carregávamos. 
Descreverei a farinha da melhor maneira para dar conta desta produção singular.
Os portugueses a chamam farinha de pau ou flour of wood, e a preparam de uma raiz arbustiva¹, encontrada em todo lugar no Brasil; a raiz é suculenta e tem uma polegada de diâmetro na maior largura, quando tostada tem o gosto da batata, mas para prepará-la como substituto do pão eles empregam uma espécie de moedor, que tem acoplado um  grande ralador circular; esta máquina reduz bem a farinha até pequenos flocos,( em vez da verdadeira farinha, que é pó) e assim é comido pelas pessoas do país, ou só ela, ou misturada com água fria em um tipo de pasta², que as pessoas parecem gostar muito e algumas vezes a comem cozida com açúcar ou melado, quando forma uma espécie de guloseima, longe de ser desagradável. Farinha e bananas, as quais são igualmente abundantes, são quase que exclusivamente a comida dos negros; e todos os habitantes, sem distinção, são tão acostumados com ela, que muito pouco pão é usado nas refeições. Quando os navios de guerra portugueses estão fundeados no Brasil, ela é servida às pessoas com o nome de farinha de guerra.

Tendo esperado para nos refrescarmos durante o período mais quente do dia, prosseguimos na nossa rota e, à noite, alcançamos um rio que era necessário que atravessássemos para obter quartos na casa dos guardas, construída no lado oposto do rio. Estava tão escuro que poderíamos não ser vistos pelo guarda do outro lado, que estava situado lá para atravessar os passageiros em canoas e o rio era tão amplo que poderíamos não ser ouvidos . Apesar da rapidez da correnteza, meu servo tirou a roupa e pulou no rio, nadando até o outro lado; ele encontrou os soldados, que instantaneamente vieram até nós. Nossos cavalos, de número de 50, nós os atravessamos a nado e os colocamos a pastar em um campo perto da margem. Nós fomos obrigados a dormir na deplorável casa dos guardas, ocupada por uma dúzia de soldados de milícia. Nós estávamos quase sem provisões, exceto algum peixe seco ruim, e alguma farinha, mas, felizmente , na parte inferior de uma mochila, na qual tínhamos carregado umas provisões, achamos uns poucos bocados e um pouco de rum, que tínhamos trazido da cabana onde paramos ao meio-dia para fazer nossa refeição. Os nossos panos de sela seriam a nossa cama para a noite e durante a qual caiu uma enorme chuva; o telhado era totalmente inadequado para manter-nos secos e nós ficamos quase tão completamente encharcados, quanto se tivéssemos permanecido ao ar livre.

10º dia de viagem

Cedo na manhã fomos visitados por um pequeno e velho francês que vivia mais acima no rio; ele tinha vindo a este país como soldado e, ali vivia por 26 anos. Durante este tempo ele não tinha ouvido a sua própria língua sendo falada. Devido a falta de prática, ele quase a tinha esquecido, mas tampouco conseguia se explicar em português, somente sua família o compreendia. Não sendo capaz de se fazer entender por palavras, ele tentou com sinais e gestos e desta maneira, pelo longo hábito, tinha adquirido uma facilidade meio grotesca de se comunicar e , algumas vezes poderia ter sido confundido com um grande macaco.

Às 7 da manhã seguinte³, nossos cavalos já tinham sido recolhidos e nos preparamos para continuar nossa jornada. Achamo-nos obrigados a passar outro passo no mesmo rio, não tão rápido quanto o anterior; os cavalos foram conduzidos pelos dragões e índios e nós seguimos numa canoa.
Aqui nós vimos uma maneira extraordinária de pesca, quase inacreditável e o que eu posso não ter mencionado, o terá feito Mr. Black na sua narrativa, também publicada. A pesca, na embocadura do rio é tão farta, que os peixes parecem cobrir a superfície da água e nada mais é feito além de bater na superfície da água com os remos; os peixes, assim alarmados e não tendo lugar para se salvarem nadando, pulam fora d’água em tal número, que alguns acidentalmente caem na canoa e são suficientes para enchê-la em poucos minutos.
Quando atravessamos este rio, um dos nossos cavalos botou na cabeça em disparar caminho afora, tão rápido quanto pode, fazendo outros o seguirem , deixando-nos em perigo de perder vários mais. O mesmo índio, que já havia agilmente perseguido o cavalo fugitivo de antes, que descrevi anteriormente, imediatamente galopou atrás deles, e eu pensando que ele poderia não ser capaz de manejar com todos eles, me juntei à perseguição. Nós os seguimos um longo tempo por areias escaldantes, em muitos lugares esta alcançando a altura da barriga dos cavalos, mas afinal, fomos bem sucedidos em trazê-los de volta e por volta do meio-dia descansamos em umas cabanas, onde tomamos um pouco de rum e comemos peixe , dos que tínhamos trazido do homem que pescou na barra do rio.
Depois do jantar , nós planejamos nossa rota e dependíamos das informações dos nossos guias, de que poderíamos atingir a vila de Laguna naquela noite, que eles disseram estava à distância de apenas 5 léguas.

Nós ficamos, entretanto, desapontados , pois mais adiante, ao prosseguirmos , na mesma noite, descobrimos que ainda estávamos distante daquela vila algumas léguas. Nós acabamos na casa de um padre, que não estava em casa, mas recebemos alguns grãos dos seus escravos, que também mataram uma ovelha para nos alimentar e nós ficamos lá aquela noite .

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Notas da pesquisadora:

1-Mandioca
2-O popular mingau
3- Ficou um pouco confusa a narrativa de Lisle, pois ele diz, nesta frase, Às 7 da manhã seguinte, sendo que descreveu no parágrafo anterior- Cedo na manhã-, não explicando se foi na mesma manhã do que estava narrando ou na próxima.
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The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
London, Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
O livro está disponível digitalmente , em versão original em inglês. https://archive.org/details/lifemajorjgsemp00sempgoog


Tradução livre feita pela pesquisadora.

domingo, 10 de novembro de 2013

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

Parte 7-  Continuação do Cap XXI (pág 236)
Descrição da viagem pelo Rio Grande

4º dia de viagem

No dia seguinte, chegamos à casa de um capitão auxiliar, onde almoçamos e fomos atendidos
de forma hospitaleira. E depois da refeição simples, nós continuamos a viagem e eu fui testemunha da destreza dos índios, que posso não conseguir relatar de maneira completa, pois esta descrição parecerá forçada para exemplificar a maneira pela qual eles usam a correia de couro trançada, chamado nesse país de laço e suas boleadeiras.
No fim daquela tarde , um dos cavalos que seguia adiante de nós, ao contrário do que acontecia normalmente,  parecia determinado a sair da companhia dos outros. Depois de várias tentativas infrutíferas , ele finalmente foi bem sucedido em escapar e galopou para longe numa corrida furiosa; um dos indígenas o perseguiu e eu o acompanhei . Depois de acompanhá-lo por pelo menos 1 hora, por sobre todos os obstáculos, durante este tempo o índio fez várias tentativas vãs de prendê-lo com o laço e , como a noite estava chegando e estávamos quase em um bosque, ainda havia um último recurso a ser usado, e eram as boleadeiras.
As boleadeiras quase nunca eram usadas, apenas quando necessário, devido ao perigo considerável de aleijar o animal; mas a perspectiva de perder o animal na corrida era um pequeno contratempo comparado ao problema que a fera indomável estava causando, então o índio resolveu usar o último recurso. Ele então pegou as boleadeiras, conforme a descrição feita anteriormente, segurando a bola pequena na mão direita sem deixar de perseguir o cavalo, rodando-as em círculos sobre sua cabeça até que ele viu a oportunidade certa; quando ( há cerca de 40 jardas de distância) ele lançou-as com força contra o animal. A boleadeira voou rodopiando pelo ar e se emaranhou completamente nas patas traseiras do animal. Assim prejudicado, o furioso cavalo se arrastou por 1 milha,(pois não podia galopar e literalmente se arrastou) até que a fadiga o compeliu a parar e então o índio, com grande destreza jogou o laço sobre a sua cabeça e manteve-o apertado no seu pescoço. Eu estava curioso para saber como ele soltaria as bolas, que estavam torcidas de uma maneira extraordinária ao redor das patas traseiras do animal, porém eu não ofereci ajuda e assisti ele resolver o problema sozinho. Ele começou por desmontar e ainda mantendo o laço apertado, amarrou um nó com o fim do laço ao redor das 4 patas do cavalo, com o que, em apenas um momento, ele se atirou sobre a lateral do cavalo e colocou seu pé no pescoço do animal, mas sem afrouxar aquela parte do laço que estava rodeando o pescoço e rolou para baixo até atingir as patas traseiras , das quais ele desembaraçou a boleadeira. Depois disto ele soltou o nó que amarrava as patas e permitiu que ele levantasse, puxando-o junto com seu cavalo.

Quando nos reunimos aos companheiros, chegamos a uma casa de fazendeiro, que era também um tenente auxiliar, situada em um local muito romântico; de um lado, a visão é limitada por montanhas, e por outro lado, abre-se para um grande horizonte, onde bosques, lagos e rios são um alívio charmoso um para o outro.

O campo é muito fértil, e as partes não cultivadas abundam , e também há um número imenso de cavalos selvagens e gado; avestruzes, que também são muito abundantes aqui. Fomos recebidos com hospitalidade, e providos com boas acomodações de todo tipo.

5º dia de viagem

Pela manhã continuamos nossa jornada.
Ao meio-dia chegamos a uma fazenda muito pobre, onde não obtivemos refresco, apenas um pouco de leite e nós, portanto, tivemos que recorrer às provisões que tínhamos trazido conosco, e à noite, acabamos em uma fazenda não muito melhor do que a que tínhamos recentemente deixado, e nesta passamos a noite.

6º dia de viagem

Na manhã seguinte, cerca de dez horas, chegamos a um rio, que passamos a vau e, ao meio-dia, chegamos a umas  cabanas de pescadores nas margens do rio, perto de sua foz e fomos novamente obrigados a almoçar das nossas próprias provisões e, em seguida vadeamos o rio uma segunda vez. Cerca de cinco horas da tarde, chegamos a um conjunto de cabanas em ruínas, ocupado por alguns negros, e havia uma nova casa inacabada a uma pequena distância. Aqui não encontramos nada além de um pouco de carne, leite e ovos, e as cabanas dos negros eram tão ruins  e imundas , que era impossível entrar  sem sentir nojo;  a casa nova estava fechada, as janelas foram barradas no interior, uma porta estava trancada por dentro, a outra fechada, e o proprietário, que tinha ido para outra propriedade que ocupou a uma distância considerável, tinha a chave com ele. Nesta situação, muitas vezes eu deitei nos campos, mas eu não me sentia  disposto a fazê-lo, quando uma boa casa aparecia, mas a dificuldade era como entrar nela.
Não podíamos forçar as janelas sem provocar danos, tendo em conta a resistência das barras, mas uma abertura de tamanho considerável sobre cada porta, embora pequena demais para rastejar através dela, deu-nos uma visão do interior da casa. Ao olhar através do buraco sobre a porta que estava trancada, eu poderia perceber por onde estava localizado o ferrolho no interior da outra porta; uma pessoa foi segurada pelo resto de nós, e colocando o braço e um longo pedaço de pau através da abertura sobre a porta trancada, com muita dificuldade, depois de uma série de esforços inúteis, retirou o ferrolho. Encontramos a casa totalmente sem mobília, mas
havia um pedaço de bacon e queijo, o qual usamos para aumentar a nossa refeição. Nós
em seguida, fizemos nossas camas dos nossos panos (carona)do cavalo fomos descansar.

7º dia de viagem

Na manhã seguinte, quando já prontos para partir, resolvemos “aprontar” com o nosso senhorio e, foi isso foi feito obstruindo por dentro o ferrolho da porta trancada, de modo a tornar a sua chave inútil. Em seguida, todos saíram, exceto o menino Richards, que, tendo trancado a outra porta, montou uma pequena plataforma, com a ajuda da qual ele alcançou o buraco por cima da porta. Através deste, com dificuldade, nós o puxamos, e depois de ter empurrado para baixo a plataforma com uma vara, subornamos os negros pelo sigilo e partimos, deixando o proprietário, com sua engenhosidade, maquinar como poderia entrar em sua própria casa.

A noite estava quase escura quando chegamos aqui, mas a bela vista que se descortinou na parte da manhã, fez-me sair deste lugar com arrependimento. Os campos ao redor eram surpreendentemente férteis e abundantes em todas as coisas, a casa onde estávamos era localizada cerca de meia milha de distância de um lago nobre e extenso, limitado por uma margem de grama luxuriante ,e, além, surgiu um bosque de árvores que nunca perdem o seu verdor, enquanto a cadeia de montanhas, que corre ao longo da costa, limita a vista, e todos estão harmonizados, de forma pitoresca, com o azul puro do céu.
Tendo desistido deste bonito cenário, prosseguimos com a nossa marcha e tendo-nos refrescado em uma fazenda, chegamos a Torres, um forte situado em uma proeminência no mar, situado nas fronteiras da província de Rio Grande.
Cerca de 1 légua antes de chegarmos à Torres, a estrada nos conduziu para baixo, ao longo da costa do mar, onde viajamos ao longo da areia, próximos da água, por uma considerável distância. Aqui tivemos uma vista total da montanha, na qual o forte foi construído, e de outra altura, cada uma das quais apresenta uma face perpendicular das rochas ,de impressionante altura, até o mar. Estas com algumas pequenas ilhas escarpadas, muito perto da costa, exibem uma vista majestosa e formam um contraste surpreendente com as cenas de fertilidade que recém deixamos. O forte que pensei, poderia ter sido inexpugnável, mas no seu estado presente , dificilmente merece o nome. Algumas baterias foram começadas, mas nenhuma foi terminada, nem eu vi mais do que duas armas montadas.
O soldado que tem sido nosso condutor na marcha, estava agora tão fatigado, que repouso era indispensavelmente necessário à ele. Seu empenho tem sido surpreendente, porque ele tinha o  comando de tudo , ele tinha que percorrer, no mínimo 3 milhas a mais que nós; meu servo, igualmente, estava totalmente desgastado; eu, portanto, consenti numa parada de 24 horas; à isto eu fui o mais prontamente induzido pela sociedade em que encontrava-mo-nos ser a mais agradável possível e pelo tenente que comandava, ter duas filhas adoráveis que cantavam deliciosamente e tocavam com muito gosto a harpa e outros instrumentos.

8º dia -descanso

Na manhã seguinte à nossa chegada, eu explorei a montanha na qual o forte está localizado, bem como a outra adjacente. A rocha forma uma enseada, ao fundo da qual está uma caverna inacessível; nisto, mesmo em um clima moderado, o mar ruge com um tremendo barulho, que pode ser ouvido a muitas léguas de distância, e algumas vezes, em fortes vendavais do leste, o mesmo se levanta acima dos penhascos.
Por isso, assim como , do forte de Torres, nós podíamos distintamente ver aquelas pequenas ilhas rochosas, que eu mencionei antes; deste local elas pareciam vivas pelo grande número de focas¹ com que estavam cobertas. O tenente mostrou-me várias peles das que ele havia matado, muitas das quais eram completamente tão largas e ásperas quanto um couro de touro.
Estas são as fronteiras mais ao norte da província do Rio Grande e apesar de fracamente povoada, o tenente assegurou-me que ele poderia, a qualquer hora que fosse requerido, juntar quinhentos homens em 24 horas², todos eles treinados para usar armas.
Eu devo aqui salientar que este cavalheiro era mais do que medianamente inteligente e muito capaz de brilhar em uma esfera mais alta do que aquela em que estava.
As únicas mercadorias deste fértil e bonito país são o milho e as peles. Com o primeiro, eles abastecem o resto do Brasil e o último é exportado para o Rio de Janeiro e dali para a Europa.
As cavalgaduras brasileiras poderiam ser consideradas as melhores do mundo, especialmente as destes campos: os cavalos são excelentes e vivem onde um cavalo europeu não conseguiria. Os homens são robustos e resistentes, são acostumados desde a infância à sela, suportam a fadiga no lombo de um cavalo de maneira assombrosa. Todo dragão de milícia, além do seu cavalo, que ele monta, tem de 2 a 5 sobressalentes, que acompanham o regimento; ele carrega, além das armas usuais de um cavaleiro, o laço e a boleadeira, e quando o seu cavalo cansa da jornada ,ele o solta e pega outro, que imediatamente monta. A sua elegância é notável, mesmo os seus adereços, suas grandes esporas e punho da espada são de prata maciça. Os habitantes da província do Rio Grande diferem consideravelmente daqueles do resto do Brasil, tanto quanto daqueles de Portugal; eles são ativos e trabalhadores, notavelmente hospitaleiros com
estrangeiros e exibem fortes traços de animação e bom temperamento em todo olhar.*

Notas da pesquisadora:
1-     Provavelmente eram leões-marinhos, que atualmente ainda aparecem nas pedras de Torres.

2-     Sabe-se que não era bem assim, pois a coroa tinha dificuldade em conseguir soldados para as suas milícias devido a falta de pagamento dos soldos, falta de treinamento, falta de vestimenta adequada e à dificuldade da vida militar errante e penosa em tal província.
* - Grifos meus.

The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
London, Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
O livro está disponível digitalmente , em versão original em inglês. https://archive.org/details/lifemajorjgsemp00sempgoog


Tradução livre feita pela pesquisadora.

NOTAS HISTÓRICAS



Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara

(Nascido na Freguesia de Santa Maria de Soutelo, Conselho de Chaves, Portugal, em  22 de julho de 1742 — Falecido em Rio Grande, em 5 de novembro de 1801)
Foi um militar e administrador colonial português, 11º governador da Capitania do Rio Grande de São Pedro, de 1780 até 1801.
Um dos 18 filhos de Francisco Xavier da Veiga Cabral e Câmara, transferiu-se para o Brasil por volta de 1767, com a patente de tenente-coronel, comandante do 1º Regimento de Bragança, a fim de combater os espanhóis que haviam conquistado a Praça de Rio Grande, a primeira capital da capitania de Rio Grande de São Pedro. Atuou sob as ordens do general alemão Johann Heinrich Bonn , comandante das forças portuguesas. Teve notável atuação na retomada da cidade de Rio Grande, em 1° de abril de 1776, ao comandar quatro companhias de infantaria que tomaram de assalto os fortes da Trindade e o do Mosquito, na margem direita do canal da Barra de Rio Grande, e posteriormente, toda aquela marinha, do Forte da Mangueira, e da Vila de São Pedro. Câmara manteve-se no comando após a expulsão dos espanhóis e foi elevado a brigadeiro, em 1779.
Em 1780 fixou residência em Porto Alegre. Propôs a mudança da Capital, então na vila do Rio Grande, para o povoado de Porto Alegre. Em 1780, foi nomeado nas funções de governador do continente do Rio Grande de São Pedro e de Primeiro-comissário de Demarcações relativo ao Tratado de Santo Ildefonso.
Teve um tio, também de nome Sebastião, que foi governador da Colônia de Sacramento em 1699 e foi o primeiro da família Câmara a vir para a América.
Deixou extensa correspondência oficial, de grande interesse para a história do Rio Grande do Sul, além de uma quantidade de mapas e levantamentos topográficos.
Solteiro, teria morrido de sífilis, foi enterrado no altar da Igreja Matriz de São Pedro, em Rio Grande.


sábado, 9 de novembro de 2013

Mapa atualizado da rota da viagem de Lisle em 1797


Este é o mapa da parte da viagem feita por Lisle, até a última postagem.

Começa a rota em Rio Grande, cidade no lado sul do Canal da Barra de Rio Grande( o mapa teimou em não aceitar a rota "atravessando" o canal, então a cidade ficou de fora).
O ponto A é São José do Norte, cidade do lado norte do canal.
O ponto B é a cidade de Estreito.¹
O ponto C é a cidade de Bojuru, antiga Estância Real da Coroa Portuguesa, que surgiu como fonte de renda para a Coroa, que viu na grande quantidade de animais alçados nas terras do Rio Grande uma maneira de cobrar mais imposto.
O ponto D, apenas para referência, é a cidade de Tavares, pois não foi citada na viagem.
O ponto E é a cidade de Mostardas².

Segundo o Google Maps, a distância entre S.José do Norte e Estreito, seria de 37 km. Entre Estreito e Bojuru, seria de mais 38 km e entre Bojuru e Mostardas, aproximadamente mais 80 km, dando no total aproximadamente 155 km, percorridos de carro( em boas condições de estrada, naturalmente), em pouco mais de 2 hs de viagem. Note-se que os viajantes, à cavalo, levaram 2 dias e meio para fazer o mesmo percurso.

 Notas:
1-Em 1750, foi construída, na localidade do Estreito, a Igreja Nossa Senhora da Conceição, a primeira do município e também Matriz. A Igreja de São José do Norte era uma dependência dessa Matriz. Quando a vila do Rio Grande, em 1763, foi tomada pelos espanhóis, a restinga recebeu os refugiados. Mas os espanhóis atravessaram o canal e ocuparam a “Barranca do Norte” e, com isso, os restantes penetraram mais para o interior, surgindo as primeiras freguesias: Mostardas e Estreito. A Povoação de Nossa Senhora da Conceição do Estreito foi elevada à freguesia em 1765. Com a criação do município de Mostardas, em 1963, passa a ser considerada, como primeiro núcleo de  povoação do município de São José do Norte, a localidade do Estreito.
2-Foi criado em 1738 o Posto de vigilância chamado "Guarda das Mustardas". O nome Mustardas permaneceu até inicio do século XX, quando passou a ser conhecido como Mostardas. No dia 18 de janeiro de 1773, foi criada a freguesia de Mostardas.

Curiosidade: entre os municípios de Mostardas e Tavares , localizava-se o Rincão do Cristóvão Pereira, entre 2 lagunas, a Laguna do Rincão e a Laguna da Lavagem. Há alguns km deste local foi construído um farol, por volta de 1859, que demorou muitos anos para ser concluído e que recebeu o nome do antigo tropeiro e negociante português, dono do Rincão, numa ponta de terra que entra na Lagoa dos Patos.

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797


Parte 6-  Cap XXI (pág 236)
Descrição da viagem pelo Rio Grande (pelo chamado Caminho da Praia)*
*Parêntese da  pesquisadora

Eles (Lisle, Black, o garoto, os soldados e índios) então se prepararam para a sua jornada, extremamente fatigante, sobre a qual já tinham sido totalmente informados pelo General e outros  que a conheciam e já a tinham experimentado.
A viagem foi apresentada em termos bem crus, salientando que somente um homem forte, habituado à fadiga poderia suportar tal expedição através de um país com muitos lugares desolados e esparsamente habitados; para segurança dos dois¹, não foi demonstrada apreensão, pois as maneiras de Lisle tinham sido até então do tipo laboriosas e empreendedoras. Porém, com uma bem intencionada seriedade, pediram a ele que não levasse Mr. Black e o garoto Richards com ele. Eles acharam que Mr. Black não era um cavaleiro experiente e o garoto nunca tinha estado numa sela. O armador tratava a fadiga e o perigo com desprezo e, Lisle, estava, além disto, além do desejo por companhia, ligado a Black pela promessa feita anteriormente², quanto ao garoto, era irresistível e por tanto tempo tinha tido somente Lisle como protetor , que não seria dissuadido de acompanhá-lo.

Nota- A partir desta parte até o fim, a narrativa de Lisle foi traduzida como no original, na primeira pessoa.

O modo de viajar neste país é verdadeiramente singular. Não há pousadas ou qualquer lugar onde cavalos descansados possam ser obtidos regularmente, portanto, o viajante leva com ele, de cinqüenta a cem cavalos, a maior parte dos quais nunca foi montado antes;  estes são pegos pouco antes serem usados por um ou dois índios, e quando um cavalo fica exausto ,o índio pega outro. Isso para um europeu não seria fácil, mas aqui é diferente, pois você só tem que apontar o cavalo que você quer e o índio vai diretamente a ele, joga o laço sobre a cabeça do animal e, apesar de todos os seus esforços para se soltar, o leva a você.
Sua Excelência tinha me dado um velho soldado³, que conhecia o país, por guia, e um soldado de milícia para acrescentar à nossa força; tivemos também dois índios para conduzir os nossos cavalos. Nós estávamos equipados com mochilas para a nossa bagagem, que são colocados sobre as costas dos cavalos, um pouco como cestos4 ; nós não tínhamos, entretanto, muito para carregar, consistindo, no todo,  algumas peças de linho, e um casaco de reposição, pois os nossos artigos pesados ​​haviam sido deixados no navio e perdidos pelo mesmo estar destruído.
Despedímo-nos do nosso amigo mais digno e benfeitor , o Governador,(Sebastião Xavier da Veiga Cabral e Câmara) que, juntamente com, a maioria dos oficiais da guarnição nos acompanhou ao lado do rio. O nosso condutor, que já estava na parte norte da vila,(na verdade do outro lado do canal, no vilarejo que se tornaria São José do Norte) já tinha preparado cada detalhe para a nossa partida e nós atravessamos naquela noite, uma distância considerável de pouco mais de 1 légua.

1º dia de viagem
No dia 4 de outubro, por volta das sete da manhã, Black, eu, o pequeno Richards, e um servo que eu havia contratado em Rio Grande começamos a nossa marcha.
Cerca de onze da manhã chegamos à aldeia de Estreito, onde almoçamos com o cura5 que nos deu uma recepção muito amigável. Depois do almoço, retomamos nossa rota com cavalos descansados, e à noite, à cerca de seis horas, chegamos à casa de um Capitão de Cavalaria Auxiliar, cerca de onze léguas distante do lugar de onde nós saímos.
Nós fomos elegantemente entretidos, mas sentamos para a ceia sem criados, pois toda a família estava sob a mais profunda aflição pela perda de uma pessoa aparentada, que morreu alguns dias antes. Essa pessoa tinha chegado a um fim trágico, enquanto nós estávamos preparando a nossa jornada, tendo sido o homem encontrado morto costa acima, perto de São Pedro (Rio Grande). Supôs-se que ele foi pego em uma emboscada, pois tinha sido observado, várias vezes, por seus servos, saindo, no final da noite, disfarçado e armado; pela marca no seu pescoço, era evidente que ele foi pego de surpresa, por um laço*, modo não muito incomum de assassinato naquele país, e ,assim que foi  estrangulado, foi jogado na água.

Um pouco antes de chegarmos a este lugar, onde passamos nossas primeiras horas, o campo começou a ficar mais fértil e a aparecer suas lavouras. Esta casa do capitão é uma das nomeadas para a recepção do governador, em suas viagens entre Port Allegro6, uma cidade situada a cerca de 60 léguas acima de Rio Grande, onde normalmente reside e Port St. Pedro, que ele apenas ocasionalmente visita. Nossa ceia foi, como antes mencionado, muito suntuosa, e poderia ter  generosamente entretido quarenta pessoas, uma vasta quantidade de provisão foi dispensada intocada, e depois de uma ótima sobremesa, e abundância de excelentes vinhos, nos retiramos para descansar; nossas camas eram adequadas para o nosso evento, eu dormi na que era reservada ao para o general, e Mr. Black ,na de seu ajudante. Tudo neste lugar é extremamente agradável, e os jardins são dispostos com gosto, e pertence ao Capitão Luiz de Souza, que, por ser um velho capitão, chamou-o de Tropa Velha7;

*Os nativos dão o nome de laço a tiras de couro trançadas com os quais pegam animais.Nota de rodapé de Lisle

2º dia de viagem
Depois de um pequeno e saudável café da manhã nos despedimos do nosso hospitaleiro anfitrião, e prosseguimos com a nossa jornada por este país bem romântico.
Cerca de onze horas, chegamos a uma cabana, onde não tínhamos nada para comer até que eles mataram uma ovelha, que foi nosso almoço.
Nesta cabana, a tripulação de um navio destruído costa acima há alguns anos atrás, viveu um tempo considerável, e um deles, que abraçou a fé Católica Romana, permanece a algumas léguas de distância. Depois de um curto descanso durante o calor do dia , quando, na verdade, viajar é quase impossível, mais uma vez seguimos a nossa viagem, e naquela noite fomos recebidos na casa do Capitão de Dragões, chamado Jozé Carneiro Geraldes8.
 A casa deste senhor é também uma daquelas onde repousa o General em seus progressos pelo continente e aqui mais uma vez, nos festejaram com suntuosidade. Nossas camas eram extremamente magníficas, e aqui, como na noite anterior, e posso acrescentar, assim como dormimos na casa de repouso de Sua Excelência, eu fui contemplado com a própria cama do general, e Mr. Black com a de seu ajudante.

3º dia de viagem
Na manhã seguinte estávamos bem abastecidos com provisões e com outros itens necessários, e depois de um pequeno café da manhã, fomos em frente.
Na nossa hora de costume, chegamos à vila de Moistardio9, onde almoçamos com o vigário, um homem de boa educação e boas maneiras, que deu-nos uma recepção muito gentil. Esta vila é notável pela sua situação, de estar no meio de um areal, embora cercado por um campo muito fino e fértil, a vila consiste de uma rua larga de casas razoavelmente bem construídas. Depois do almoço, continuamos nossa rota para Nastântia de Pavoz10, uma fazenda real.
Aqui, à quantidade de cavalos que já havíamos coletado e estavam sendo conduzidos diante de nós, adicionamos cerca de uma dúzia, de propriedade da coroa, e distinguem-se por terem uma orelha cortada.
A região adjacente, tão longe quanto permite a vista, é coberta com um número infinito de cavalos selvagens, alguns poucos dos quais podem, de fato, ter sido uma vez ou duas, montado e, em seguida, novamente solto, mas, de longe, a maior parte está em um estado natural. Os habitantes mantêm alguns, muito poucos para serviços domésticos e, quando eles querem algum para serviço do Rei, serviços tais que são feitos freqüentemente, eles pegam os selvagens, e dentre estes assim recolhidos, o viajante deve selecionar aqueles que ele quer para montar. Como nenhum dos meus companheiros britânicos, nem meu servo, eram cavaleiros experientes, eu sempre quis que eles tivessem os cavalos mais mansos. Pequeno Richards, por conta de sua juventude, montou  no mais manso, Mr. Black afirmou que era o próximo na preferência, e, em seguida, meu servo brasileiro, como a mim mesmo, os dragões, e os índios, tomamos qualquer que era oferecido, porque eles, os cavalos, só apareceram porque eram capazes de realizar o seu trabalho.

Notas da pesquisadora:

1-Black e o garoto Richards
2-De que Black acompanharia Lisle à Laguna
3-No original-dragoon-dragão de milícias
4-Bruacas de couro cru
5-Pároco
6-Porto Alegre
7-Manoel Marques de Souza, nasceu na Vila de Rio Grande, em 27 de janeiro de 1743. Na iminência da guerra contra os espanhóis, em 1763-77, alistou-se no Regimento de Dragões do Rio Pardo, tendo se destacado na luta contra os espanhóis até 1774. Por seu valor, intrepidez e profundo conhecimento adquirido dos homens e da terra rio-grandense, foi feito ajudante de ordens, em 1775, do Tenente-General Henrique Bohn, comandante do Exército do Sul estacionado em São José do Norte e encarregado de expulsar os espanhóis da Vila Rio Grande. Lutou e resistiu contra os espanhóis no sítio Rancho Velho ou Tapera Velha. Este tinha um irmão, Luis Francisco Marques de Souza, que pode ser o Luis de Souza citado por Lisle.
Fontes- Informativo Guararapes em http://www.ahimtb.org.br/cangureenchist.htm
Anais da Província de São Pedro, Visconde de São Leopoldo, pg 163
8-Tinha 2 sesmarias na região, na época. Sesmaria 1-1754 – 2 léguas x 1,5 légua de largura – Extensão: duas léguas de comprimento e uma e meia légua de largura.
Localização: terras de campos sitas no Distrito da Freguesia de Mostardas, divide-se a Leste pela ponta do Capão das Melancias, e um Pantano que se separa do Rincão do Cristóvão Pereira e, seguindo o mesmo rumo até o Capão do Tamanduá,  o divide com Antônio Gomes de Carvalho, foi uma pequena lomba com uns arbustos, e do dito Tamanduá a rumo de Sueste até a margem da Lagoa do Peixe, e correndo esta duas léguas, mais ou menos até onde, em linha reta a rumo do Sul Sudoeste vai encontrar uma Sanga ou Pântano junto ao mato da mesma Costa, e da referida Sanga, a rumo ao Oeste – noroeste, se divide com Narciso José de Medeiros e João Felix de Vasconcellos, tocando o Capão de Tavares, e deste a rumo de Nordeste, ficando dentro do terreno do Capão da China, se divide com o Capitão Manoel Marques de Souza por um esteiral que nasce no dito Capão da China e fundo um Capão das Melancias.
Concedida por Luiz de Vasconcellos e Souza em 1782.
Sesmaria 2- 1779 –  1,5 Légua comprimento - Fazenda de Mostardas – sangradouro das Melancias e do Tamanduá. No site- http://marisaguedeshistoriadora.blogspot.com.br/2013/06/distribuicao-das-sesmarias-no-litoral.html
9-Mostardas
10-Não encontrei referência a nome parecido, embora haja o comentário de Lilse de que era uma fazenda real. O material será editado caso se descubra a que estância se refere.

     The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
London, Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
O livro está disponível digitalmente , em versão original em inglês. https://archive.org/details/lifemajorjgsemp00sempgoog

Tradução livre feita pela pesquisadora.

Mapa da barra e da Vila de Rio Grande em 1786



Imagem reproduzida do manuscrito "Defesa da Ilha de Santa Catarina e do Rio Grande de São Pedro", de José Correia Rangel (1786), pertencente ao acervo do Arquivo Histórico Militar de Lisboa. - Data: 1786
Onde aparece a barra de Rio Grande e a vila de São Pedro(futura cidade de Rio Grande)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

Parte 5 - Cap XX (pág 229)
Descrição da Província do Rio Grande e sua incomum hospitalidade.

No meio de setembro, o General Sebastião Xavier da Veiga Cabral e Câmara recebeu uma carta do governador de Montevidéo, estabelecida no lado norte do Rio da Prata , relatando que um navio inglês havia sido levado até lá por amotinados, que o nome do navio era Lady Shore, com soldados britânicos e mulheres condenadas, que o francês que o comandava declarou que tinham se revoltado em consequência de terem sido forçados a servirem como soldados, que eles tinham se tornado mestres do navio perto de Rio Grande e neste processo o capitão, o imediato e um soldado foram mortos e que eles tinham lançado um bote ao mar, com todas as coisas necessárias, com um major, dois oficiais de tropa, dois do navio e vários outros, a alguma distância do Rio Grande.
O governador de Montevidéo expressou sua grande satisfação ao saber que todos tinham chegado salvos à praia e solicitou ao General, caso estivessem na sua companhia, que os ingleses se empenhassem em enviar um relatório do ocorrido, e, acrescentou ele que estava ansioso por isto, pois ele poderia confiar no relatório dos ingleses, e pensava que não poderia fazê-lo no dos amotinados.
Foram então feitos 2 relatórios, um pelo oficial Michin e outro pelo armador e comissário de bordo, John Black.¹ 
(...)
A província do Rio Grande estava localizada aos 6 graus de latitude sul e a 34 graus de longitude oeste; o solo era extremamente fértil, produzindo todas as coisas com abundância e com tais coisas seus habitantes eram supridos; de fato, o luxo das pessoas abastadas era excessivo, não como seria de esperar em um lugar quase ermo, separado do resto do mundo.
A vila de São Pedro (Rio Grande) estava situada há 4 léguas a partir da barra do rio, do qual a província tomou seu nome. Era, na maioria, de madeira, mal construída, dispersa, com muito poucas boas casas; existiam 2 ou 3 que consistiam em mais de 1 andar. A casa do governador era pequena, mas conveniente, situada inteiramente em um plano militar. Consistia de uma suíte de apartamentos , todos ao nível do chão. Havia uma bonita catedral, com muitos estabelecimentos adequados, e,  supunha Lisle, que lá, como em todo lugar, o clérigo fosse bem cuidado.
As pessoas, ao contrário da pátria- mãe de Lisle, eram notavelmente limpas e vestidas de uma maneira esplêndida. A roupa de linho deles era extremamente fina e sempre muito limpa; para tanto servia o efeito do sol e a água pura, tal que sua roupa era branca além da imaginação.
A hospitalidade dos rio-grandenses excedia tudo que ele tinha visto em outras partes do mundo; eles não se contentavam com a fria civilidade, a qual era dignificada em nome da hospitalidade nos outros países; eles cortejavam uma sociedade formada por estranhos, meramente para obter falsos benefícios e eles estavam sempre prontos a prestar serviços a quem se aproximasse. Mas sua hospitalidade ía além disto: os brasileiros seguiam os soldados nas ruas, convidando-os a suas casas e prestando favores a eles. Como os soldados retornaram estes atos de bondade será visto a seguir.
Além das forças regulares, toda a população masculina estava matriculada na milícia e formava , não os mais disciplinados, mas , de longe, o mais bem vestido corpo(militar) do mundo; seus coletes e calças eram geralmente de seda, assim como o forro dos seus casacos e tornavam sua aparência verdadeiramente elegante. As maneiras ordeiras e civilizadas desse regimento formavam um contraste gritante com o comportamento dos soldados britânicos que lá estavam. Estes heróis (os britânicos) estavam sempre discutindo, não só entre eles e com seus próprios oficiais, mas com seus benfeitores na cidade, a quem nunca deixaram de conceder cada epíteto abusivo do seu conhecimento do idioma português, como maneira (obviamente equivocada) de retornar as civilidades que receberam. Esta conduta irregular e brutal fez o General, o mais suave e humano homem que existia, aprisioná-los na casa dos guardas, ou melhor, tanto foi o seu comportamento ,que durante as 7 semanas que permaneceram ali eles nunca estiveram em total liberdade. Sua Excelência estava tão desgostoso com eles, que Lisle o ouviu repetidamente dizer que os mandaria para casa às suas custas ,para não lhes permitir ficar no país. Infeliz ficou Lisle em acrescentar que estes soldados foram visitantes tão frequentes à prisão que os habitantes lhe deram o nome de Quartel dos Ingleses.
(...)
Pelo dia 20 de setembro eles se prepararam para embarcar num navio para o Rio de Janeiro, o oficial Minchin, sua esposa, Black e Lisle, e as esposas dos oficiais e o resto da companhia.
O vento foi desfavorável e eles continuaram por 3 semanas na embocadura do porto e se divertiram atirando(caçando). Foi encontrado um vasto número de uma espécie de pássaro, chamado pelos portugueses, Quero-Quero, pelo seu grito; perdizes eram abundantes, mas havia abundância também de cegonhas, narcejas, papagaios do mar, etc. O grande número de abutres que abundava no lugar era uma benção aos habitantes que matavam todo ano um vasto número de gado selvagem para a retirada do couro. As carcaças que eram deixadas no mato deveriam, por sua putrefação, causar pestilência, se elas não encontrassem um fim rápido no apetite devorador daqueles pássaros vorazes.
Eles capturavam este gado de maneira singular: com laço e com boleadeiras, usadas por índios montados à cavalo,( descritas com espanto por Leslie.)
As boleadeiras foram descritas da seguinte maneira: o outro método(para pegar o gado) era com o uso de 3 bolas conectadas por uma tira de couro, 2 delas com aproximadamente 3 polegadas de diâmetro, e a outra , que era para ser segura na mão, com 2 polegadas. O caçador, quando queria fazer uso dela, pegava a bola menor na sua mão direita (levantava o braço acima da cabeça) e boleava as outras 2 sobre sua cabeça em movimento circular até atingir a velocidade própria e então ele atirava o dispositivo com tal destreza em direção às pernas do animal que estava sendo perseguindo, que ele quebrava ou se emaranhava conforme se conseguisse.
Usando estes artefatos, 300 a 400 mil cabeças de gado eram abatidas anualmente.²

Eles ficaram vários dias detidos por ventos contrários e era a opinião geral de todos que conheciam a costa, que o vento não mudaria até a mudança da lua, e com a ansiedade de Lisle pelo retorno à Europa aumentando, a sua natural impaciência e temperamento o estavam deixando infeliz. Ele, portanto, resolveu então pedir permissão ao Governador para ir por terra, a despeito do perigo e dificuldade para realizar tal expedição; mas antes de solicitar a permissão, ele consultou o Armador Black fazendo-o prometer que o acompanharia. Em consequência da resolução do Mr. Black, ele despachou um mensageiro até Sua Excelência, o General , que com sua usual gentileza e polidez, mandou uma resposta imediata permitindo sua ida quando ele assim o desejasse e que poderia levar consigo o que escolhesse.
Na manhã seguinte, ao raiar do dia, eles desembarcaram do navio para retornar à cidade. Quando eles deixaram o navio o vento estava contrário, mas justo quando eles atingiram a praia, ele mudou.  O piloto³  fez sinal para os navios, 10 ao todo, para seguirem. Lisle e Black tinham parado na beira do rio e com algum arrependimento viram os navios saindo em direção ao mar, e todos os navios, exceto o que eles recém tinham deixado, passaram a barra em segurança. O deles bateu em um banco de areia empurrado por uma violenta ventania surgida do nada e o piloto foi socorrê-los, mas vendo-o perdido, com o seu próprio bote e os lançados do navio tiraram todas as pessoas a bordo. O Sr e a Sra Minchin salvaram toda a sua propriedade, mas a do Sr Black e a de Lisle foram deixadas à bordo e depois do navio ser feito em pedaços, o infeliz Black estava de novo sem nada.
Mr Minchin atracou no lado norte do rio, que é muito amplo, e Lisle e Black estavam no sul, onde não havia botes para pegarem. Os Minchins se dirigiram ao bote do piloto e eles montaram os cavalos para irem à cidade.
Mais tarde, Minchin pediu permissão ao General para que pudesse ir por terra , mas Sua Excelência achou melhor recusar dizendo a ele que iria providenciar uma passagem em um dos próximos navios que navegaria para o Rio de Janeiro em poucos dias.

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Notas da pesquisadora:

 1-O relatório dos ingleses foi redigido de modo a omitir que Lisle também era, originalmente, um                      dos prisioneiros, o que demonstra que a confiança do governador de Montevidéo no relato dos                    ingleses era equivocada.
 2-O comentário consta do livro e não se sabe quais fontes Lisle usou.
 3-O piloto ou prático era funcionário do porto , qualificado e entendido nas águas costeiras, que ficava em um bote na saída da barra, orientando os navios na saída para o mar, pois era quem conhecia a correnteza e os bancos de areia que existiam.
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The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
London, Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
O livro está disponível digitalmente , em versão original em inglês. https://archive.org/details/lifemajorjgsemp00sempgoog

Tradução livre feita pela pesquisadora.
*Algumas partes narradas aqui foram descritas por Guilhermino César, no seu livro Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul, de 1969.

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

Parte 4- Continuação do Cap XIX- Os Oficiais conhecem o Governador


O piloto mestre e um capitão de milícias que estava com ele os receberam com o máximo de gentileza e os dirigiram para a casa do funcionário do porto e onde nada que pudesse dar-lhes conforto foi omitido pelo bom homem e sua família. Mr.Black, Mr.Murchison e vários outros desceram do bote com a roupa do corpo, pois seus baús haviam sido jogados no mar. O superior destes homens, Mr. Black, como não tinha salvado quase nada de seu, naturalmente solicitou ao Minchin , que tinha, como foi observado anteriormente, guardado mais do que a sua bagagem pessoal na hora de separar o que levaria consigo, e como foi recusado seu pedido, foi forçado pedir a Lisle por uma troca de roupa. Isto era tão vexatório que Mr. Black clamou a Minchin que dividisse as coisas que tinha salvo e que eram, na verdade, propriedade dele, entretanto como a bagagem de Lisle tinha escapado ilesa, ele pode ajudar tanto Mr. Black, quanto Mr.Murchison.
Depois de descansarem por 1 hora, foi pedido pelo Piloto que eles informassem, da melhor maneira, quem eram, para ser feito o relatório para o governador da província,Tenente-General  Sebastião Xavier da Veiga Cabral e Câmara, que residia no Forte São Pedro, por conta da guerra contra os espanhóis, situado 4 léguas rio acima. Ele ainda comentou que eles deveriam permanecer onde estavam até terem uma resposta de Sua Excelência.
Era natural que Lisle desejasse que seus infortúnios não fossem desnecessariamente tornados públicos; ele bem sabia que nem Mr. Black , nem Mr.Murchison eram capazes de ações crueis, tão pouco tinha dúvidas com relação à Mr. Drummond. Lisle tinha feito tudo pelo bem geral e, estava certo de que deles teria o retorno apropriado. Porém, a opinião de Lisle com relação à Minchin e Prater era muito diferente. Então ele chamou os dois para outra sala e perguntou qual era a intenção deles em relação ao que sabiam sobre a situação dele.. Ambos ao serem questionados, responderam que, por todos os meios, deveriam esconder todas as coisas desagradáveis acontecidas e que não seria do interesse dos portugueses  os problemas de Lisle. Então assim ficou combinado. Lisle assegurou que estava tocado com a gentileza deles, mas era necessário que soubesse o que os dois tinham decidido contar a respeito dele antes de ver o General. Com cuidado, Lisle advertiu-os para que não o enganassem e que se eles pensassem em cumprir o seu dever ou sentissem disposição de contar sobre a sua situação de prisioneiro ao General, ele também faria o mesmo, e que o governador que agisse como achasse apropriado. Se, entretanto, eles primeiro concordassem com Lisle e depois mudassem de ideia expondo-o, exporiam a eles mesmos e Lisle não se submeteria pacificamente a coisa tão mortificante. Eles então repetiram que não tinham intenção de dizer mais do que seu nome e patente militar se fossem requisitados a fazer o dito relatório.
Nisto, Lisle deixou-os e eles propuseram à Mr. Murchinson, Mr. Black e cia, a fazer o mesmo ao que eles consentiram prontamente, e o relatório acabou contendo  o nome do navio, o lugar de destinação, com os nomes e patentes de cada indivíduo, que foi entregue ao Piloto, no qual, Lisle foi descrito como Major Semple Lisle ( Oficial Escocês), um passageiro. O Piloto transmitiu  o relatório ao Governador-General e na manhã seguinte , Sua Excelência enviou um oficial não comissionado com as instruções. O Piloto foi orientado a enviar, diretamente, quem fosse Oficial, imediatamente rio acima, até ele, motivo pelo qual ele não faria a ceia antes que eles chegassem. Os soldados e mulheres foram orientados a seguir pelo rio, no escaler com que sobreviveram ao motim.
Assim, Minchin, com sua esposa, Prater, o Comissário de bordo, e Lisle, concordaram e embarcaram no bote do Piloto, enquanto Mr. Drummond e Mr Murchinson permaneceram para se encarregarem do lançamento do bote e das bagagens dos que foram no primeiro barco, que não puderam carregar. Eles não tinham percorrido 1 légua rio acima, quando encontraram a barcaça do General com um oficial que informou-os que tinha sido enviado pelo General para felicitá-los por terem escapado e para conduzí-los até a vila. A seguir, eles foram para a barcaça do General e logo alcançaram o Forte de São Pedro.
Eles encontraram o Governador-General em uma grande câmara de audiências, na sede dos oficiais da guarnição, todos vestindo seu uniforme completo. A benevolência aparente do seu semblante, sua forma viril e a elegância de suas maneiras encheram Lisle de admiração, respeito e uma muito favorável gentileza, que o conhecimento posterior amplamente confirmou. Aquele inimitável general, que tendo passado os últimos 30 anos de sua vida inteiramente no Brasil, não se aventuraria, naquele dia, a falar com os convidados em francês, pois ele tivera poucas oportunidades de conversar naquela língua e ele percebeu que era incapaz de se expressar como gostaria, mas um Tenente-Coronel de Engenharia, familiarizado com o francês, foi instado pelo General a perguntar sobre as aventuras do grupo e a assegurar que Sua Excelência daria a eles toda assistência em seu poder.
(...)
O General então, dirigiu-se a Lisle conversando com ele até a hora do jantar.
Para divertir os convidados até que a mesa estivesse preparada, alguns oficiais os conduziram até a casa do Comandante - Coronel Manoel Marques de Lima e Souza. Lá eles encontraram uma grande empresa que foi montada com a finalidade de oferecer seus serviços e congratulá-los pela feliz chegada ao país. Vários refrescos foram apresentados e entre eles uma bebida engarrafada extremamente fina , e como aquela parte do Brasil não tinha tráfego estabelecido  com qualquer outro alojamento do mundo, a bebida era mais apreciada que o Imperial Tokai na Grã-Bretanha. Cada indivíduo desta assembleia respeitável tratou-os com carinho, parecendo competir um com o outro por atos de gentileza para com os visitantes.
Eles retornaram para a casa do General pelas 4hs da tarde, quando o jantar foi anunciado e eles foram suntuosamente entretidos. Eles sentaram e eram 40 pessoas à mesa, em um esplêndido jantar de 3 serviços e uma sobremesa elegante; e este é o estilo em que Sua Excelência vive.
`A noite eles foram conduzidos aos alojamentos que foram providenciados para eles. Sua Excelência tinha dito à Lisle, enquanto saíam, que não podia acomodá-lo na casa dele, mas tinha encontrado alojamento adequado e mandado preparar para ele; o Tenente Drummond pediu para ser alojado com Lisle, o qual, vendo que o tamanho do quarto era suficiente, pediu para colocarem mais uma cama, o que foi feito. Na manhã seguinte, o Tenente Coronel dos Engenheiros, que tinha atuado como intérprete no dia anterior, foi ao alojamento de Lisle pedir que este o acompanhasse até o General. Em observância ao pedido, este foi imediatamente , quando depois de alguma conversa sobre vários assuntos, Sua Excelência disse que seria necessário que ele e os oficiais do navio e as tropas fizessem um relatório, com todos os pormenores sobre todos os acontecimentos e que este seria transmitido ao Vice-rei.
Lisle argumentou que na situação em que estava, não faria nenhum relatório, pois ele não servia a Coroa Britânica, inclusive tinha estado sob circunstâncias desagradáveis e não tinha preocupação tanto com o navio, quanto com as tropas, sendo apenas um passageiro, como podia ser percebido pelo relatório feito pelos oficiais de Sua Majestade e pelos que estavam no bote, no momento da chegada.
O pedido do General por um relatório foi passado para o Comissário Minchin e para o outro cavalheiro, que em consequência, preencheu outro relatório similar ao primeiro, mas mais completo. Foi assinado por todos e Lisle aceitou e confirmou como sendo verdadeiro.
O convite para jantar com o General continuou enquanto durou a estadia deles e Lisle foi posteriormente intimado a ver Sua Excelência toda manhã, às 8 hs.
No terceiro dia, esperando pelo General, conforme era seu desejo, este polidamente dirigiu-se à Lisle e disse que estava confiante que nenhum homem merecia mais usar uma espada do que o próprio Lisle e concluiu presenteando-o com uma. Lisle ficou lisonjeado com tal distinção pelo excelente e realizado general, mas seu prazer se mesclou com dor, pois sabia os efeitos que isto teria na mente dos oficiais e antevia algum evento desagradável em consequência da inveja deles.


 The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
London, Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
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Tradução livre pela pesquisadora.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

Parte 3- Continuação do Cap XIX - Os náufragos chegam ao porto de Rio Grande

Mr. Black, Mr. Murchison, o Segundo Imediato e Mr. Drummund assumiram o barco, o Comissário de Bordo Prater que nos seus tempos de iniciante tinha levado alguns viajantes para as Indias Ocidentais e outras partes, sendo supostamente algo como um marinheiro, foi adicionado àquele grupo; Lisle e os outros, estavam constantemente empenhados no salvamento, pois, independente do barco estar sendo esvaziado, o mar estava muito alto e a chuva muito pesada, e ele estava continuamente se enchendo de água. Os movimentos rápidos e violentos fizeram, mesmo os melhores homens do mar ficarem enjoados; o pobre Black se rendeu, incapaz de qualquer movimento, e  Prater, depois de todas as suas profissões, não foi considerado nem marinheiro, nem soldado; ele foi colocado no leme e tomou este lugar. Descrever a situação não era fácil. As crianças podiam perecer a qualquer momento, estavam todos amontoados com as bagagens, com soldados doentes e inúteis, mulheres e crianças quase à beira d’água, e com esta multidão dentro do bote, ir para trás e para frente para trabalhar com este(o bote) para os que ainda trabalhavam, foram obrigados a pisar nos corpos inanimados dos doentes ou daqueles que, pelo medo, foram forçados a deitar.
Ao amanhecer do segundo dia, fizeram algumas sondagens e cedo viram terra, que eles sabiam ser a costa arenosa que corre do porto do Rio Grande até o Cabo Santa Maria, no Rio da Prata. A extrema baixeza da costa causava os brakers, ondas muito altas que se acumulavam e corriam muito rápidas e longe no mar. A costa prometida que tinha comida e abrigo estava perto, mas eles poderiam não chegar vivos à ela se o bote fosse inundado nos brakers; eles, entretanto determinaram que deviam seguir mais para o norte, mantendo a costa à vista. Naquele dia eles fizeram uma observação imperfeita, de que estavam a mais de 20 léguas ao sul de Rio Grande e viram que o bote parecia quase voar através da água. Uma corrente forte que vinha do sul carregou-os antes que se dessem conta  e eles ficaram surpreendidos, pelas 3 hs da tarde, por ver algo semelhante ao mastro de um navio; eles foram em direção à ele e descobriram ser um navio destruído. Ainda não havia terra para ser vista, mas perceberam, mais perto da costa, vários mastros, que eles concluíram eram de navios ancorados, e embora de pé no bote, tanto quanto os olhos podiam alcançar, mais longe ainda nada podia ser visto além de areia, mas eles ficaram convencidos de que devia ser a foz de Rio Grande, desde que eles sabiam que a costa, dali até o Rio da Prata, não apresentava nenhum porto.
Os bancos de areia que corriam para o mar fizeram a situação do bote ficar horrível, pois pareciam estar rodeados pelos brakers. Ali parecia não haver nenhum recuo para eles, nenhuma possibilidade de segurança, exceto ir em direção ao alto mar, e então, com a ventania ainda soprando com toda violência e a noite avançando, oferecia uma única esperança desamparada: assaltados por perigos e ameaçados por todos os lados por dissoluções, um ousado e último recurso restava, eles estavam determinados a passar através dos brakers e seguir um curso direto até os navios que viram fundeados.
Na aproximação da costa, Lisle tinha entregado o leme a um piloto capaz, o Tenente Drummond; confiante em sua habilidade, eles foram em frente, enquanto todos que ousaram olhar para cima fixaram seus olhos nos tremendos brakers que eles estavam para encontrar e esperaram em silêncio pelo destino que parecia inevitável. Em um instante, o oceano irrompeu sobre eles em todas as direções, tudo no bote estava virado e enchendo de água. Mr. Drummond supondo que nada poderia salvá-los, a não ser aliviar o peso do bote, mandou todos jogarem os baús sobre a borda do bote. Mr. Murchison, com sua presteza viril e liberalidade que ele sempre exibia, deu o exemplo com seu próprio baú; assim a bagagem foi sendo jogada pela amurada sem distinção até que foi suficiente para deixar o bote mais leve. E eles ficaram em débito de sua existência para com Mr Murchinson e para com as habilidades de Mr. Drummond. Tendo passado a primeira série de brakers, e encontrando-se em águas mais suaves, mas ainda com brakers entre eles e a costa, eles usaram uma âncora e içaram uma bandeira inglesa na cabeça do mastro, mas pela violência do vento tiveram que baixá-la assim que foi içada. Eles, entretanto, tinham sido percebidos pela casa-sinal localizada na foz do rio¹, que respondeu a eles com a bandeira portuguesa e com a ajuda de um vidro², puderam ver um bote indo em direção a eles, mas achando que eles íam rápido demais em direção a alguns brakers que havia entre a posição deles e a ponta de terra que corria para o mar, eles de novo, ficaram sob vela e rumaram para o rio. A Providência dirigiu-os para o canal certo e eles encontraram o bote do piloto muito perto da costa.

Notas da pesquisadora:
1-Saída de um rio no mar-aqui refere-se à barra do Canal de Rio Grande
2-Não encontrei tradução adequada para este termo, glass, podendo ser referência a uma espécie de monóculo antigo de longo alcance usado pelos marinheiros da época colonial, que seria equivalente ao binóculo atual.

  The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle- 1797
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  Tradução livre pela pesquisadora.

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- 1797

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Tradução livre pela pesquisadora.* Nota- Não tenho a pretensão de ser uma tradutora e peço a   compreensão para os entendidos em inglês. O meu conhecimento da língua me permite fazer, como eu anotei, uma "tradução livre", tendo o cuidado de não descaracterizar o que foi narrado pelo autor, mas posso ter cometido algumas imperfeições. Optei por fazer a tradução de apenas parte do livro de Lisle, referente aos capítulos que narram a chegada ao porto de Rio Grande e a viagem pelo Rio Grande do Sul, apresentando a primeira parte da narrativa do livro, na terceira pessoa, tornando a viagem uma descrição mais impessoal. Porém, na parte da viagem por terra até Laguna, optei por manter a narrativa como no original em inglês, todo na primeira pessoa.
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Parte 2-
Cap XVIII (pág 193)
Narrativa da viagem do Lady Shore depois da saída de Cabo Frio até o Rio de Janeiro e é onde o motim começa.(Apenas frase de descrição resumida do capítulo)*Nota da pesquisadora

 Cap XIX (pág 208)
 Os náufragos chegam ao porto de Rio Grande

Na manhã de 15 de agosto de 1797, foi confirmado pelos amotinados do Lady Shore, que a antiga tripulação do navio, agora aprisionada, deveria abandonar o navio, a 60 léguas da costa, e entre 80 e 100 léguas da barra do Rio Grande, o bote foi içado para fora e todas as outras preparações feitas. Logo então, Michael Richards, um bom rapazote, de 14 anos e com muito boas relações pessoais, que fora confiado aos cuidados do Capitão Wilcocks, antes de deixarem Falmouth e que desde a morte do capitão tinha sido abandonado por todo mundo, pediu a Lisle permissão para acompanhá-los. A sua situação desesperadora determinou Lisle a tentar adquirir ele mesmo o privilégio desejado pelo garoto e que parecia inteiramente necessário. Ele apelou aos amotinados e teve sucesso. Ele tomou o garoto sob sua proteção, proteção esta que ele não deixaria até ter retornado aos seus familiares.
Pela manhã, uma lista com 29 nomes foi feita das pessoas que deveriam ir com o bote e esta lista foi entregue a eles, e ainda foram informados que aqueles que tivessem alguma propriedade deveriam levar para cada um, um baú apenas. Durante a tarde a bagagem foi procurada e separada, e foi quando Lisle encontrou meios de esconder em algum sabão, uma considerável soma em ouro: quando os amotinados haviam tomado deles tudo que imaginavam, eles lhes deram algumas provisões e então embarcaram.
Previamente ao embarque, Lisle tinha tido oportunidade de descobrir a posição do navio, pelo seguinte estratagema: os amotinados não suspeitando que um soldado conhecesse alguma coisa de navegação, haviam permitido que ele acompanhasse o seu dia de trabalho,( cujo verdadeiro intuito era o de determinar a localização do navio), mas embora ele achasse que pudesse entender alguma coisa da ciência, ele queria a opinião de outra pessoa melhor entendido do que ele. Mr. Black, sendo um incomparável navegador , foi a pessoa que ele consultou, mas houve uma considerável dificuldade em acompanhar o desenho feito por Lisle, já que os amotinados não estavam muito dispostos a que Mr. Black visse o diário de bordo ou a carta da costa onde eles haviam traçado a sua rota. Um dos chefes dos amotinados, chamado Thomeo, que era o melhor navegador entre eles , mostrou a Lisle a carta, como de costume e apontou a localização do navio, do que Lisle fingiu discordar e ainda reforçou sua opinião, apostando 1 guinéu que eles estavam errados, no que o homem riu da sua aparente ignorância; Mas, afinal, Thomeo aceitou a aposta, propondo contar a qualquer pessoa que tivesse habilidade competente para decidir. Isto era o que Lisle queria e , com grande indiferença, propôs que Mr. Black fosse o julgador de tal questão. Ele foi , portanto, chamado para inspecionar as cartas e livros: Lisle pagou pela aposta que tinha perdido , mas assim eles foram capazes de determinar a distância até Rio Grande e o curso que tinham que seguir com o bote, pois os amotinados estavam inclinados a mantê-los na ignorância.
Eles foram compelidos a entrar no bote, um por um , depois de ser previamente feita uma busca por dinheiro, contrariamente ao que tinha sido prometido pelos amotinados. Contudo, nada foi encontrado. Porém, havia sido confiscado, previamente, cem dólares que o Michin tinha para pagamento dos soldados e era propriedade do governo, por isto eles lhe deram um recibo de cem libras, como uma maneira de incapacitá-lo de recuperar a quantia do Estado. Michin tinha tão pouca bagagem que ele não somente levou-a toda, como foi bem sucedido em incorporar 18 peças inteiras de algodão estampado e alguns pacotes de meias e sapatos de mulher  que o Sr Black havia jogado na cabine do dia do embarque.
Após negociações que duraram o dia inteiro e o carregamento do escaler com provisões (quatro sacos de pão, três pedaços de carne salgada e três garrafas de água e ainda, escondido nas roupas, a tripulação levou dois pedaços de presunto, dois queijos e uma barriquinha com rum), por volta das 18h30min daquele dia, ao anoitecer, foram lançadas ao mar 29 pessoas (os oficiais, suas famílias e os marinheiros leais a eles) com a ração de provisão e ansiosos para chegar à terra tão brevemente quanto possível, dirigiram-se ao rumo determinado previamente. 
Na partida, o tempo estava toleravelmente moderado, mas antes da meia-noite foram envolvidos por uma violenta tempestade , assolada pelas mais furiosas chuvas que Lisle já vira. A tempestade diminuiu um pouco durante a manhã do dia seguinte, mas conforme eles se aproximavam da terra, soprou com fúria renovada; afortunadamente eles tinham fixado uns postes na amurada do bote e pregado uma lona por cima, trazida para este propósito, na frente e atrás, que foi de grande utilidade para conter a chuva. E a isto, eles deviam muito a sua preservação.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Viagem pelo RS de J.G.Semple Lisle- Introdução

Parte 1-Introdução. A história do motim*

O episódio do motim foi investigado pelo casal de ingleses Peter e Patrícia Wright, em 2009, que descobriu pormenores do acontecido, principalmente sobre o destino dos amotinados e prisioneiras depois que chegaram a Montevidéo.

O navio onde tudo aconteceu, o Lady Shore, foi contratado para servir como navio-prisão. Era um grande veleiro de transporte de tropas e prisioneiros, com 316 toneladas de peso e armado com 20 canhões para defesa. Deixou o porto inglês de Kew, em 8 de junho de 1797, com carga formada por prisioneiros da Coroa Britânica. Ele carregava nos porões 68 condenados – dois homens e 66 mulheres. Todos tinham sido sentenciados na Inglaterra a penas que variavam de sete a 14 anos de reclusão ou desterro por toda a vida na Austrália, que na época era apenas uma ilha que funcionava como colônia penal britânica.
As condenações eram extremamente severas, se confrontadas com os modernos padrões legais. Uma mulher que furtou duas colheres de chá feitas em prata, por exemplo, recebeu sete anos de reclusão. Outra garota, de 14 anos, recebeu pena de prisão perpétua por furtar roupas de um patrão idoso. Havia também casos de homicídio, de mulheres que mataram os companheiros. Elas receberam pena de morte, mas como opção à forca lhes foi oferecido cumprir sentença perpétua na longínqua Austrália. O Major Lisle, apesar de militar, era um dos condenados a viajar no navio-prisão. Ele foi sentenciado por aplicar golpes por toda a Europa. Dominava vários idiomas e atuava como intérprete, quando foi condenado. Usou dessas habilidades para negociar com os amotinados, mas acabou lançado ao mar com a tripulação do Lady Shore.

A tripulação do navio não era muito diferente de Lisle. Os 70 recrutas do Corpo de Guardas de Nova Gales do Sul (província australiana) foram descritos pelo armador do barco, John Black, como “o mais desagradável e rebelde grupo de vilões que jamais ingressou num navio”. Existia um grupo de soldados ingleses aprisionado por cometer faltas graves – dois dos sargentos se comportaram tão mal que entraram no navio acorrentados. Outros seis soldados também ingressaram algemados, pois estavam sentenciados a servir num regimento em Nova Gales do Sul para toda a vida – e isso não lhes agradava. O restante eram prisioneiros de guerra capturados nas batalhas napoleônicas: franceses, suíços e alemães forçados a ingressar, contra sua vontade, no Exército inglês. Por fim, a tripulação era formada ainda por um grande número de presos políticos irlandeses, “republicanos que odiavam tudo que fosse inglês e monárquico”, nas palavras de Black.
Em seu livro, o armador John Black, co-proprietário que viajava no navio, assinala alguns erros que podem ter facilitado o motim. Um deles é que o número de estrangeiros forçados a servir no Corpo de Guardas do navio era similar ao de ingleses. Outro é que esses soldados-prisioneiros tinham direito de carregar armas de fogo e considerável quantia de munição.
Em 1º de agosto, quando o Lady Shore estava cem léguas a nordeste de Cabo Frio (Brasil)  eram 4h, quando o imediato, Mr. Lambert, viu homens carregando os mosquetes e tentou sacar suas pistolas. Foi atacado com baionetas e recebeu tiros, vindo a falecer minutos depois. O capitão Willcocks não teve melhor sorte, foi baleado, perfurado e teve o pescoço cortado pelos rebelados. No tiroteio, dois rebeldes franceses também morreram. Black tentou se refugiar em seu camarote, mas acabou se rendendo aos amotinados, assim como William Minchin, comandante do Corpo de Recrutas, e o Major Lisle – que, apesar de prisioneiro, se fizera muito amigo dos oficiais do navio. Os três, outros oficiais, suas mulheres e filhos foram mantidos aprisionados durante duas semanas. O líder dos rebeldes, um francês, justificou a rebelião pelo fato deles, estrangeiros, terem sido forçados a ingressar no Exército britânico (inimigo), contra sua vontade e contra seus princípios republicanos.
O Lady Shore dos amotinados prosseguiu viagem até Montevidéu , na época um porto espanhol. O problema é que a Espanha era inimiga da Inglaterra, nas guerras napoleônicas. De pouco adiantou os 70 amotinados dizerem que eram prisioneiros de guerra dos britânicos. Os espanhóis os cercaram e os enviaram à cadeia. Alguns permaneceram encarcerados por anos, outros foram libertados logo e deles não se teve mais notícia.
A sorte das mulheres que iam para a prisão e foram libertadas pelos amotinados do Lady Shore mudou para algumas e para outras não. As condenadas por crimes comuns na Inglaterra tiveram destino mais brando do que a prisão; as mais bonitas, conforme arquivos existentes em bibliotecas uruguaias, teriam sido doadas como servas para as casas abastadas dos fazendeiros uruguaios e argentinos. Outras, com menos sorte, teriam ido parar em casas de prostituição.

Quanto a Lisle e a tripulação de oficiais e náufragos do Lady Shore, eles só deixaram o porto de Rio Grande meses depois. É que nenhum navio de porte passava por ali e os ingleses estavam, literalmente, abandonados à própria sorte. Black e Lisle decidiram então, viajar à cavalo até a Ilha de Santa Catarina ( atual Florianópolis), onde havia um porto mais movimentado. Ganharam dos lusitanos 50 cavalos, dois soldados e um índio. Viajaram por terra até Laguna e, dali, rumaram para um porto baleeiro no sul da Ilha de Santa Catarina. Ali foram recebidos pelo governador, que designou-lhes apartamentos em seu próprio palácio. Conseguiram então carona num navio português em 9 de novembro até o Rio de Janeiro, onde chegaram 10 dias depois. Lá acabaram encontrando o comandante do Corpo de Guardas do Lady Shore, Minchin, que conseguira sair de Rio Grande num navio e chegar antes.

*Divulgado no site  http://defender.org.br/2009/04/18/rebeliao-no-atlantico-sul/  Defender – Defesa Civil do Patrimônio Histórico

Viagem pelo RS de James George Semple Lisle - 1797

Quando encontrei a referência a este livro algum tempo atrás, fui investigar se havia algum exemplar perdido por aí e descobri que ele havia sido publicado somente em inglês em 1799.*Posteriormente descobri que há parte deste relato de Lisle publicado no livro Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul, de Guilhermino César, edição de 1969, já esgotada. Graças à facilidade que a internet disponibiliza atualmente, descobri uma versão do livro em inglês, online, que consegui baixar para ler.
Explico a minha curiosidade: o escocês(autor do livro) era um militar que estava em um navio que sofreu um motim na costa do Rio Grande do Sul , em episódio pouco conhecido dos gaúchos, e depois de aportar em Rio Grande resolveu fazer a viagem por terra até Laguna. Era este o meu interesse, descobrir o que ele poderia ter contado da sua viagem, pois a mesma foi feita na época colonial, período em que recaem as minhas pesquisas históricas sobre o Rio Grande do Sul.
Resolvi postar aqui a parte do livro que interessa aos estudiosos, pelo ineditismo de algumas descrições sobre o Rio Grande, obviamente em capítulos, pois são muitas páginas de material traduzido.

The Life of Major J. G. Semple Lisle, por J.G.Semple Lisle
London,Printed for W. Stewart, No. 194, Opposite York House, Piccadilly, 1799
Livro com 500 páginas.
O livro está disponível digitalmente , em versão original em inglês

Tradução livre feita pela pesquisadora.
*Nota- Não tenho a pretensão de ser uma tradutora e peço a compreensão para os entendidos em inglês. O meu conhecimento da língua me permite fazer, como eu anotei, uma "tradução livre", tendo o cuidado de não descaracterizar o que foi narrado pelo autor, mas posso ter cometido algumas imperfeições.

Resumo:

O livro conta a vida do Major Lisle,( aventureiro escocês, nascido em 1759), narrado por ele mesmo, desde seu nascimento, com a pretensão de ser uma narrativa idônea de sua vida, porém vários comentaristas “desceram a ripa” no livro, pois ele narrou o que quis e parcialmente, de modo a favorecê-lo, contrariamente ao que quis demonstrar, pois não era modesto, nem humilde e sim, fraco, velhaco e oportunista. O interesse deste livro no que se refere ao Rio Grande do Sul, são os capítulos em que ele narra a viagem que fez por terra, desde a vila de Rio Grande até Laguna, (depois do motim acontecido no navio onde estava aprisionado, em 1797, na costa de Rio Grande, quando foi abandonado no mar junto com 28 pessoas), fazendo o antigo trajeto do Caminho da Praia. A narrativa do motim é interessante, mas foi incluído aqui apenas em parte, por não ser o objetivo desta tradução.  Porém, resolvi pesquisar na edição original, sem consultar o livro publicado em português,( para não perder possíveis detalhes que poderiam ter sido mudados na tradução antiga) , com o fim de ilustrar o primitivo caminho usado pelos antigos sertanistas da Capitania do Rio Grande, que o usaram para percorrer esporadicamente a rota entre Laguna e a Colônia do Sacramento, a partir do início do século XVIII. O acesso à Sacramento, desde Laguna, era comumente feito por mar. Somente após as explorações de Francisco de Brito Peixoto e seus conterrâneos lagunenses,(no início dos 1700) que começaram a utilizar caminhos e picadas através do planalto e da serra do Rio Grande do Sul e da abertura dos caminhos de Francisco de Souza e Faria e o de Cristóvão Pereira de Abreu, que fez melhorias no primeiro, permitindo o acesso à Lages desde Viamão, foi que esta rota pelo litoral foi sendo abandonada.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Praça Daltro Filho - Vacaria

Foto da praça Daltro Filho, batida após a construção da catedral,( pois na época da finalização da mesma não havia praça, apenas o terreno vazio), e antes da remodelação feita por volta de 1940. 

                      Fonte- Relatório de prestação de contas do prefeito Dornelles Filho, de 1944.

Praça Daltro Filho-Vacaria


               Data da foto abaixo é de  4/ 7/1940, conforme data que consta na mesma foto no relatório de                  prestação de contas do prefeito S. Dornelles Filho, de 1944, arquivado no Arquivo Histórico do RS.


               Abaixo, ilustração feita pelo urbanista Ubatuba de Farias, que planejou a remodelação da praça,                    como consta no mesmo relatório,comprovada por correspondência do urbanista enviada ao          prefeito, incluída no relatório e copiada abaixo.




Abaixo,outra foto batida do mesmo lugar que a primeira, porém com pequena diferença de posicionamento e com data de acervo de 1942. Originalmente devia ser em preto e branco e deve ter sido editada. Deve ter sido tirada na mesma ocasião da primeira foto desta postagem.



domingo, 3 de novembro de 2013

Origem dos Borges Vieira em Portugal- BLOG

Quero divulgar aqui o Blog Heróis do Homem e Cávado, do português Antonio Gonçalves, que faz um trabalho belíssimo de pesquisa abrangendo a região Norte de Portugal ,nas freguesias banhadas pelo Rio Cávado, o que inclui, segundo ele, a região de origem de grande parte dos Borges e Vieiras que vieram ao Brasil. Com auxílio dele tentei encontrar o primeiro Borges Vieira que foi povoar Vacaria, mas a pesquisa foi inconclusiva por falta de documentos que suportem as hipóteses descobertas.
O Blog está neste link- http://origenshc.blogspot.com.br

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Passaportes antigos

       Registros de passaporte- Ilha de Santa Catarina-1779
       Continuação: Parte 6
      *Nota- o português foi atualizado na transcrição e comentários entre parênteses( ) são acréscimos da      pesquisadora.

1-     Aos 5 dias do mês de janeiro de 1779 anos, nesta vila do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu Manuel Antonio, natural da Ilha da Graciosa, casado nesta dita ilha, oficial de sapateiro, de idade de 29 anos; Estatura pouco menos de ordinária, cabelo comprido e amarrado, rosto comprido, pouca barba, sobrancelhas grossas, olhos azuis, nariz afilado, e passa ao Rio de Janeiro à sua dependência. E por se achar presente Pedro Antonio Alz(Alvarez ou Alves) declarou ser o próprio e assinou(...)
2-     Aos 12 dias do mês de janeiro de 1779 anos, nesta vila do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu João Batista da Silva, homem casado , natural do Rio de Janeiro e assiste (mora) nesta dita ilha, donde veio há 35 anos, de idade de 40 anos. Estatura ordinária, cabelo curto e barba preta, rosto comprido, sobrancelhas grossas, olhos pretos, e passa à vila de Laguna a seu negócio, e por eu conhecer o próprio assinei(...)
3-     Aos 25 dias do mês de janeiro de 1779 anos , nesta vila do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu José Lopes Jordão, casado nesta dita ilha, natural da Província do Alentejo, Bispado de Évora, de onde veio há 14 anos. Estatura menos de ordinária, cabelo amarrado e preto, rosto comprido, bastante barba, sobrancelhas grossas, olhos pardos grandes, nariz afilado, passa ao Rio de Janeiro à sua dependência(...)
4-     Aos 30 dias do mês de janeiro de 1779 anos , nesta vila do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu José Ar(ilegível) Soares, que passa à vila de Laguna à seu negócio , natural da Ilha Terceira, donde veio há 30 anos, assistente nesta ilha, casado, estatura ordinária, cabelo e barba preta, rosto comprido, sobrancelha grossas, olhos pardos, nariz grande, de idade de 40 anos, e leva em sua companhia um escravo de nome João, de idade de 24 anos(...)
5-     Aos 21 dias do mês de fevereiro de 1779 anos nesta vila de Nossa Sra do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu José Francisco de Faria, solteiro, natural desta ilha, estatura ordinária, rosto comprido, pouca barba, sobrancelhas grossas, olhos pardos, nariz meio afilado, e passa ao Rio de Janeiro, à suas pendências, de idade 22 anos (...)
6-     Aos 22 dias do mês de fevereiro de 1779 anos no meu cartório apareceu Anna Theresa do Nascimento, natural de São Paulo, donde se veio há 3 anos, estatura ordinária, grossa de corpo, rosto redondo, boca pequena, lábios grossos, sobrancelhas grossas, olhos pardos, nariz pequeno, de idade 23 anos, e por estar presente o Cap Manoel da Costa declarou ser verdade(...)
7-     Aos 23 dias do mês de fevereiro de 1779 anos nesta vila do Desterro, Ilha de Santa Catarina, no meu cartório apareceu Antonio Pedro, natural de Minas (Gerais) donde veio há 19 anos e vai para (ilegível) tratar de suas pendências . Estatura ordinária, cabelo e barba preta, rosto comprido, sobrancelhas grossas, picado de bexigas(marcas de varíola), olhos pardos, boca pequena, nariz curto, (...) leva em sua companhia sua mãe, Rosa Maria, natural da vila de Sabará, estatura ordinária, trigueira, cabelo amarrado, testa grande, sobrancelhas grossas, rosto comprido, olhos pardos, nariz afilado, boca pequena, com ...no pescoço na parte direita, de idade de 44 anos , e leva também em sua companhia sua mulher, Rita Paula, natural da Ilha Grande, estatura ordinária, trigueira, cabelo amarrado, rosto redondo, boca grande, sobrancelhas grossas, olhos pardos, nariz grosso, de idade 24 anos, e leva também em sua companhia sua sobrinha, Theresa Timótea, natural do continente do Rio Grande, solteira de idade de 17 anos(...) Assinou como testemunha o Alferes Antonio José de Freitas Noronha.
8-     E logo no dito dia, mês e ano retro próximo declarado nesta vila, no meu cartório apareceu José Muniz Branco, natural da cidade do Porto, soldado do mesmo regimento, donde veio há 13 anos, casado, estatura ordinária, cabelo amarrado, com alguma falta de cabelo no alto da cabeça(seria um careca?), testa grande, rosto comprido, picado de alguns sinais de bexiga, sobrancelhas grossas, olhos pardos e meio encovados, boca grande e de idade 44 anos e passa ao Rio de Janeiro a incorporar-se ao seu regimento e apareceu Antonio Gracia que diz  reconhecer o suplicante pelo próprio(...)
9-      E logo no dito dia, mês e ano retro próximo declarado nesta vila, no meu cartório apareceu Antonio José Pereira, natural da Ilha Graciosa, Bispado de Angra, donde veio há 28 anos, solteiro, estatura pouco menos de ordinária, cabelo e barba preta, gordo, testa grande, rosto redondo, sobrancelhas grossas, olhos pardos, boca pequena, nariz afilado, de idade 43 anos, e passa ao Rio de Janeiro à seu negócio, o qual reconheço ser o próprio(...)
10-     Aos 23 dias do mês de fevereiro de 1779 anos nesta vila do Desterro no meu cartório apareceu Miguel Vicente da Silva, natural do Rio de Janeiro, donde veio há 1 ano, viúvo, estatura ordinária, cabelo e barba preta, testa grande, sobrancelhas grossas, lábios grossos, olhos pardos e passa para a dita cidade à seu negócio, de idade de 30 anos(...) e por estar presente Joaquim José Machado declara ser o próprio(...)
11-     E logo no dito dia, mês e ano supra declarado no meu cartório apareceu Francisco Caetano Vieira, natural da freguesia de São José da Terra Firme, distrito desta ilha, casado, estatura ordinária, cabelo e barba preta, testa grande, sobrancelhas grossas, rosto comprido, com sinais de bexiga, olhos pardos, e passa ao Rio de Janeiro ao seu negócio(...)